Telemedicina regulamentada já é uma realidade em Portugal

Notícias Telemedicina regulamentada já é uma realidade em Portugal
Data:

11/02/2020

Daniel Ferreira, Diretor Clínico do Centro Clínico Digital do Hospital da Luz em Lisboa, compartilha boas práticas e conta como a tecnologia salva vidas e aumenta a adesão ao tratamento de pacientes com doenças crônicas

O cardiologista português Daniel Ferreira, Diretor Clínico do Centro Clínico Digital e Coordenador da área de Cardiologia Clínica do Hospital da Luz em Lisboa, conta em entrevista exclusiva para o Global Summit sobre sua experiencia com a Telemedicina em Portugal, onde também atuou como vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) de 2017 a 2019. Hoje, ele é Coordenador do Grupo de Estudo de Saúde Digital da SPC.

No país europeu, a Telemedicina já é uma realidade, sendo regulamentada pelo Governo e aplicada tanto no serviço público quanto no serviço particular de saúde. O Hospital da Luz atende pacientes em mais de 15 países de 4 continentes, com mais de 20 especialidades médicas em atividade em 6 dos hospitais da rede. Ali, a tecnologia ajuda a salvar vidas e garantir que pacientes com doenças crônicas sigam o tratamento corretamente, tendo mais acompanhamento médico e prevenção.

Como a Telemedicina pode beneficiar a cardiologia?
Acompanhamos muitas patologias crônicas por meses e até anos alternando consultas presenciais com consultas à distância (vídeo-consultas). Desse modo, permitimos uma ligação maior dos pacientes com seu cardiologista, o esclarecimento de dúvidas, a minimização da interrupção do tratamento por falta de receituário e a detecção precoce de efeitos colaterais dos medicamentos etc.

Pode compartilhar algumas boas práticas da Telemedicina em Portugal e especialmente no Centro Clínico Digital do Hospital da Luz?
Aqui em Portugal já existem alguns projetos como o acompanhamento domiciliar de pacientes com insuficiência cardíaca ou doença pulmonar obstrutiva crônica, entre outras doenças. Os resultados vêm sendo muito positivos, não apenas no controle das queixas dos pacientes, como também e principalmente na redução do número de visitas aos serviços de emergência e até mesmo na redução da mortalidade.  O Centro Clínico Digital do Hospital da Luz foi criado no âmbito do grupo Luz Saúde (o maior grupo privado de saúde em Portugal) com o objetivo de evitar deslocamentos desnecessários ao hospital. Os pacientes têm acompanhamento constante para suas doenças crônicas e ainda podem discutir os resultados de exames efetuados após uma consulta presencial ou um internamento recente. Já atendemos pacientes de 15 países e 4 continentes e o Centro Clínico Digital do Hospital da Luz tem mais de 20 especialidades médicas em atividade em 6 dos hospitais da rede

Como funcionam as consultas remotas?
Todo o serviço foi montado para que a vídeo-consulta fosse o mais próxima possível de uma consulta presencial, desde que possa ser dispensado o exame físico do paciente. O médico precisa validar os critérios de elegibilidade de cada especialidade, definindo quais são as patologias elegíveis ou não para uma vídeo-consulta. Os pacientes acessam a plataforma “My LUZ” pelo seu computador ou pelo aplicativo para tablet ou smartphone, no dia e hora previamente agendados, e entram em uma sala de espera virtual onde são atendidos por uma assistente do Centro Clínico Digital. Depois de recepcionados e identificados pela assistente, os pacientes são atendidos pelo médico em uma sala de consulta virtual. A assistente sai da sala e, então, o médico realiza registros clínicos no prontuário do paciente exatamente do mesmo modo que faria numa consulta presencial, podendo, caso necessário, compartilhar sua tela com o paciente para mostrar algum resultado de exames. Já no final da consulta, o médico envia a receita médica ao paciente por SMS e e-mail e a assistente volta para agendar exames e uma próxima consulta (presencial ou remota). O médico sai então da sala, deixando a assistente e o paciente efetuarem o check-out da consulta.

Em Portugal já faz alguns anos que as prescrições médicas passaram a ser apenas digitais, em todos os hospitais e clínicas, sejam públicos ou privados. O paciente recebe um código eletrônico e uma guia de tratamento para poder levantar o receituário em qualquer farmácia do país. O principal fator diferenciador do nosso serviço em relação a outros existentes em Portugal e outros países é o fato de que os pacientes, ao acessarem o serviço, são consultados pelos seus médicos de sempre e não por um médico que esteja de plantão naquele dia. Isso fortalece o relacionamento médico/paciente.

Na sua opinião, como a Telemedicina pode beneficiar a sociedade? Que mudanças ela traz para a medicina e toda a área da saúde?
No início, a Telemedicina ajudou a resolver a escassez de recursos humanos ou técnicos nos sistemas de saúde. Se não tínhamos um neuroradiologista disponível no hospital, resolvemos o problema permitindo a realização local das tomografias ou ressonâncias e enviando as imagens para o especialista analisar e elaborar o relatório final à distância, por exemplo. Hoje, a Telemedicina também permite aos pacientes um acompanhamento à distância através de vídeo-consultas e telemonitorização. Podemos assim ter os pacientes mais vigiados e acompanhados pelos seus profissionais de saúde, aliviando a carga existente sobre os hospitais. A saúde pública ganha eficiência e economia e os pacientes ganham melhorias significativas da qualidade de vida.

Como o senhor vê o futuro da Telemedicina? O que podemos esperar de avanços para os próximos anos?
É sempre difícil prever o futuro, mas eu diria que a implementação da tecnologia 5G (que em Portugal chegará dentro de poucos meses) irá trazer um novo cardápio de possibilidades para a Telemedicina, nomeadamente na área da telemonitorização em tempo real. À medida em que a tecnologia vai nos disponibilizando novas ferramentas, adaptamos nossos sistemas de saúde para usá-las em benefício dos nossos pacientes e das nossas instituições, mas não defendo que as ferramentas devam ser usadas apenas porque estão disponíveis.

O que você acha de ter um evento especialmente voltado à Telemedicina no Brasil?
Se em Portugal, país muito pequeno da Europa, assistimos a um entusiasmo crescente pelas várias vertentes da Telemedicina, imagino que no maior país da América do Sul o entusiasmo possa ser muitíssimo maior. Congregar num mesmo evento os vários entusiastas e os decisores políticos e institucionais em discussões sobre os benefícios da Telemedicina para o Brasil só pode ser uma iniciativa digna de louvor para os seus organizadores.

Como responder às críticas que acusam a Telemedicina de afastar o médico do paciente, desumanizando essa relação?
Esta é uma questão recorrente sempre que abordamos as temáticas da Telemedicina. Permitam-me lembrar Charles Darwin, que nos ensinou que as espécies que sobrevivem não são as mais fortes, mas sim as que melhor se adaptam à mudança. Acredito que a grande maioria dos médicos que afirmam que a Telemedicina prejudica a relação médico/paciente sofrem de profundo desconhecimento sobre o tema ou tiveram más experiências com projetos implementados de modo ineficiente. Outros fatores da atividade assistencial trouxeram graves prejuízos nesta relação médico/paciente, e todos eles relacionados às consultas presenciais: o alto número de consultas por período de atendimento (com consequente redução do tempo disponível para consulta) e a necessidade de efetuar registros nos processos clínicos eletrônicos (levando à queixa frequente dos pacientes de que os seus médicos passam mais tempo olhando para a tela do que para eles) são apenas dois exemplos disso.

Como médico, sendo a minha atividade primordial a atividade clínica, prezo muito a minha relação com os meus pacientes. Estaria perfeitamente disponível para que fosse questionado a qualquer um dos pacientes que acompanhamos no Centro Clínico Digital se entende que esta metodologia de atendimento comprometeu, de algum modo, a sua relação com os seus médicos-assistentes. O grau de satisfação dos pacientes é muito elevado e a grande maioria que já experimentou esta opção prefere hoje efetuar uma vídeo-consulta do que uma consulta presencial e afirma ter maior proximidade com o seu médico que está, nesta modalidade, mais disponível. Sempre teremos médicos e pacientes que preferem um acompanhamento presencial. É por isso que a ambos (médico e paciente) deveria ser possível permitir optar pelo tipo de consulta que gostariam de manter (presencial, vídeo-consulta ou, como é o nosso caso, ambas as modalidades de modo alternado).

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