Tecnologia promove acesso à saúde de alta qualidade, principalmente em regiões remotas

Artigo Tecnologia promove acesso à saúde de alta qualidade, principalmente em regiões remotas
Data:

30/07/2021

Especialistas que já atuavam em telemedicina antes da pandemia debateram no 17º Warm Up os desafios e oportunidades da transformação digital

“Telemedicina e saúde digital no Brasil: aprendendo com quem faz” foi o tema do warm up do Global Summit Telemedicine & Digital Health 2021, realizado em 15 de julho. O evento mensal é a oportunidade para quem atua e tem interesse em saúde digital, telemedicina e telessaúde para interagir com profissionais do mercado nacional sobre o quanto as tecnologias e a inovação estão transformando a área da saúde. 

A importância da transformação digital no acesso à saúde de qualidade e em áreas remotas do país, as questões que envolvem as discussões para a regulamentação definitiva da telemedicina, como a territorialidade e a primeira consulta, bem como as vantagens da saúde digital na otimização de processos e na experiência do paciente foram destaques no debate moderado por Jefferson Gomes Fernandes, neurologista e presidente do Conselho Científico do Global Summit Telemedicine & Digital Health, e Antonio Carlos Endrigo, diretor de Tecnologia da Informação (TI) da Associação Paulista de Medicina (APM).

“Na primeira edição do Global Summit, em 2019, a discussão era sobre uma eventual regulamentação da telemedicina. Com a crise sanitária que acelerou o uso da saúde digital, agora em 2021 temos muito a debater nessa questão, principalmente em pautas relacionadas à legislação e regulamentação da prática da telemedicina, e compartilhar experiências adquiridas recentemente também é muito relevante”, afirmou Endrigo.

Carlos Pedrotti, médico-referência do Centro de Telemedicina do Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE), que participa desde o início da fundação do centro de medicina a distância da instituição, contou como foram desenvolvidos produtos e estratégias de saúde digital e a história do projeto, iniciado em 2012, com urgências e emergências em programas governamentais. Na iniciativa, auxiliavam com opiniões especializadas os médicos generalistas que estavam em pronto atendimento em 27 hospitais diferentes no Brasil

“Em 2013, expandimos o programa e, no ano seguinte, começamos a trabalhar com telemedicina, em contato com profissionais de enfermagem que já estavam intermediando consultas com os pacientes. Passamos a atender teleneurologia 24 horas, programas de medicina intensiva, em 2015, e, em 2016, já estávamos trabalhando com atendimento direto ao paciente, ainda numa escala pequena, mas expandindo. A pandemia não foi o iniciador da telemedicina, mas, sim, o acelerador”, informou Pedrotti.

Presente há quase dez anos na área, o projeto se consolidou e conseguiu trazer melhor acesso à medicina de alta qualidade a quem jamais poderia imaginar receber o atendimento, principalmente em regiões remotas.

“As tecnologias já existem há algum tempo e estão cada vez mais acessíveis e não são o grande impedidor. O maior desafio encontrado hoje é definir bem o processo de como médico e paciente de diferentes regiões podem se comunicar”, destacou o médico do HIAE, ao comentar os obstáculos enfrentados pela instituição na trajetória com a telessaúde.

Mas os resultados têm mostrado que os desafios têm sido superados. O programa de telemedicina do HIAE tem uma média de 80% a 85% de pacientes que recebem alta sem a necessidade de um pronto atendimento presencial; 92,2% de satisfação dos pacientes atendidos; e ainda trabalham com serviços de atendimento offshore, teleneurologia, transferências neurológicas e tele-UTI.

Eficiência

Coordenador médico de Saúde Digital do Hospital Moinhos de Vento, Felipe Cabral explicou sobre o macroambiente e saúde digital presentes na instituição.

Com um programa que envolve 250 startups, 18 estados e quatro países diferentes, o Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre (RS), tem o objetivo de ter novas tecnologias, projetos com agilidade e rapidez, eficiência operacional, engajamento das lideranças e levar a cultura interna de inovação para a empresa, segundo o coordenador médico de Saúde Digital, Felipe Cabral.

Ele contou que o projeto de saúde digital teve início na instituição em 2016, com os serviços de teleoftalmologia. Dois anos depois, deram início às teleconsultas e tele-UTI. No ano passado, expandiram para os atendimentos e ambulatórios virtuais.

“A saúde digital não é necessariamente 100% digital, fazemos parte de um contexto, não queremos substituir, mas sim somar”, observou Cabral, que destacou que no Hospital Moinhos de Vento vem desenvolvendo três frentes de atuações principais em inovação: programa de conexão com startups, iniciativas internas e conexão com grandes empresas.

O coordenador ainda informou que a instituição pretende se conectar em parceria com grandes empresas e gerar novos negócios e produtos que melhorem ainda mais o atendimento aos pacientes.

“Nossa telemedicina tem cinco anos, com mais de 100 mil atendimentos, presente em mais de 25 cidades e mais de 150 médicos ativos. A importância da digitalização é se manter competitivo, aprender mais rápido do que a concorrência, focar no desejo do consumidor, trabalhar com dados e aumentar seu modelo de negócio. Temos vistos que todas as outras vertentes dentro da nossa sociedade vêm se digitalizando há muito tempo e isso faz tudo ser mais exponencial”, ressaltou Cabral, lembrando Alvin Toffler: “Os analfabetos do século XXI não serão aqueles que não souberem ler e escrever. Mas todos que não souberem aprender a desaprender para, então, reaprender”.

Estruturação

As ações de saúde digital que estão sendo desenvolvidas no Hospital das Clínicas (HC), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), que possui oito hospitais conectados em um único complexo, operam trabalhando com quatro pilares fundamentais: assistência, educação, pesquisa e inovação.

Segundo o chief innovation officer no Inova HC/USP, Marco Bego, a instituição já trabalha com telessaúde desde 1997 e, ao longo desses anos, desenvolveram muitas ações, mas foi a pandemia de Covid-19 que acelerou os processos de forma nunca vista, possibilitando o uso da tecnologia de maneira mais estruturada.

No entanto, conectar as iniciativas, disciplinas e especialidades foi um dos grandes desafios enfrentados durante o processo, de acordo com Bego.

“Com a necessidade de desenvolver a parte de atendimento para casos de Covid-19 e continuar com a assistência gratuita fora da área da pandemia, tínhamos a melhor oportunidade para posicionar o HC na saúde digital, acelerar o uso e começar a estabelecer a prática da telemedicina no hospital”, explicou.

Dentre os objetivos definidos para a saúde digital, a instituição manteve o foco em programas de referência, melhoria da experiência do paciente no Sistema Único de Saúde (SUS), criar fontes de eficiência e adiantar a operação do HC para atender também à atenção primária.

“O projeto foi estruturado em fases e tivemos de fazer uma reanálise da nossa estratégia. Alinhado com os pilares que já tínhamos, definimos algumas iniciativas e começamos a escalar novos projetos”, contou o especialista.

Bego explicou que havia mais de 70 iniciativas de saúde digital já acontecendo no HC e que para serem colocadas em prática, começaram a organizá-las em etapas: visão, metas e iniciativas, para definir quais ações eram necessárias para atingir os pilares estabelecidos, e organizar os projetos de forma macro com as pessoas certas liderando cada um deles.

Desafios

O médico especialista em Telessaúde na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Natan Katz falou sobre as ações, desafios e objetivos a serem realizados em telemedicina no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) – instituição pública e universitária vinculada academicamente à UFRGS.

Desde sua implementação na instituição, 52.878 teleconsultas foram realizadas em 2020. Número que deve ser superado em 2021, pois somente nos primeiros seis meses do ano, 35.300 teleatendimentos já foram feitos, principalmente nas especialidades de Medicina de Família, psiquiatria, endocrinologia, nefrologia, enfermagem e genética.

Katz explicou que as ações que deveriam ser realizadas para alcançar os resultados em telemedicina foram definidas após serem discutidas por vários setores da instituição, que estabeleceram que o mapeamento, dificuldades, ferramentas e funcionalidades deveriam ser analisadas para que o projeto de saúde digital fosse efetivo.

“Devido ao grande fluxo de pacientes, muito rapidamente conseguimos fazer a migração de consultas remotas realizadas pelo hospital para o atendimento a distância”, salientou.

O médico frisou ainda que foi importante a otimização dos processos administrativos para o acesso aos recursos de saúde, bem como regulamentar e promover o uso de recursos da telemedicina no HCPA.

“Com isso, foram criadas tarefas baseadas em três temas estratégicos: cuidado centrado com o paciente e baseado em valor, otimização de recursos, espaços e sustentabilidade econômico-financeira”, completou.

Entre os desafios e as perspectivas futuras, o especialista afirmou que ainda é preciso investir em estrutura, melhorar e realizar processos mais sofisticados e eficientes e expandir a atuação da telemedicina no país.

“Ainda perdemos muito tempo na parte administrativa, de contato com os pacientes. A ideia é investir em estrutura para transformar o atendimento virtual em algo muito parecido com o presencial e que os profissionais tenham de fazer muito pouco para conseguirem atender os pacientes”, defendeu Katz, que ressaltou ser fundamental a mudança de cultura no que se refere à subavaliação do teleatendimento.

“O bem que conseguimos fazer a partir da prática da telemedicina é muito maior do que o risco que eventualmente poderia existir. É preciso dar a liberdade de escolha ao médico e ao paciente para decidiram se cabe ou não a teleconsulta, seja a primeira ou as subsequentes”, afirmou.

Na opinião de Fernandes, “as experiências apresentadas durante o debate mostraram as dimensões, maturidade e evoluções da saúde digital, o que demonstra claramente os benefícios para a população, para os serviços e para o sistema de saúde da prática da telemedicina e o uso da tecnologia como instrumento de trabalho”, finalizou.

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