Tecnologia deve ser aliada na atenção primária para maior eficiência na qualidade da assistência à saúde

Artigo Tecnologia deve ser aliada na atenção primária para maior eficiência na qualidade da assistência à saúde
Data:

16/10/2020

Para os especialistas que participaram do Global Summit Telemedicine & Digital Health, as transformações digitais devem influenciar o futuro do setor e da medicina

Os debates sobre as transformações da saúde na era digital ganham cada vez mais espaço no Brasil, envolvendo as diversas faces que integram o setor. Da atenção básica, ao foco na humanização do atendimento até a telemedicina, a tecnologia e a inovação vêm ganhando espaço e permeiam as mudanças na assistência ao paciente.

Mais do que os inúmeros avanços das máquinas e descobertas para prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças, a discussão sobre os desafios que isso tudo representa num país com tantas peculiaridades é necessária e passa pela atenção primária – foco central das necessidades do setor para grande parte da população.

Nesse campo, segundo Giovanni Cerri, vice-presidente do Instituto Coalizão Saúde e presidente do Conselho Diretor do Inrad, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), a eficácia maior da evolução tecnológica está na capacidade de armazenar e fazer a gestão de dados, antecipar fluxos e desafogar o sistema. “Com a administração de informações pelas soluções digitais é possível evitar o desperdício e o mau uso dos recursos, é viável o manejo adequado dos pacientes com doenças crônicas e a promoção da efetiva prevenção, auxiliando os médicos com prontuários atualizados e indicando hábitos para uma vida mais saudável, para o despertar do autocuidado”, destacou o médico no talk show  “Atenção Primária, Inovação e Digitalização”, realizado no último dia da edição 2020 do Global Summit Telemedicine & Digital Health (GS) – maior congresso de telemedicina e saúde digital da América Latina, idealizado pela Associação Paulista de Medicina (APM) e promovido pelo Transamerica Expo Center.

Dessa forma, desfaz-se a ideia de que tecnologia na saúde é apenas para atender uma parcela dos brasileiros com acesso a planos de saúde ou atendimento particular. “A inteligência artificial está cada vez mais à disposição. Por meio dela, os pesquisadores alimentam o sistema com uma quantidade grande de dados e rapidamente obtém-se padrões e se faz associações para analisar os casos, ajudando o médico a tomar decisões mais resolutivas”, explicou Cerri.

Mas apesar dos esforços desenvolvidas para a informatização das Unidade Básicas de Saúde e para implantação do Prontuário Eletrônico do Cidadão, as dificuldades e os desafios do processo em nível nacional ainda são grandes. “Existe uma distância imensa do mundo ideal para aquele que vivemos na ponta. O SUS nos seus 30 anos aumentou a vacinação e a cobertura da Estratégia de Saúde da Família, mas o financiamento nunca acompanhou os avanços no sistema”, lamentou Cerri, que disse ser preciso melhorar a integração das informações no setor para democratizar a assistência à saúde. “Falta vontade política que democratize o acesso da população com dados capazes de promover melhorias na qualidade do atendimento e redução de desigualdades.”

A diretora-executiva do HC-FMUSP, Marisa Madi, concorda que apesar da saúde ser um direito de todos, ainda há grande discrepância no acesso ao serviço básico de saúde e mais ainda no especializado, uma vez que ele se concentra especialmente nos grandes centros.

Embora a estimativa do Ministério da Saúde seja que a atenção primária esteja presente em cerca 95% dos municípios brasileiros, ainda é difícil fixar profissionais nas áreas isoladas – seja por questões financeiras ou mesmo por falta de infraestrutura adequada. “Mas esse cenário pode mudar com a telemedicina, que, autorizada durante a pandemia do novo coronavírus,  vem se mostrando uma grande aliada no atendimento à população, inclusive em regiões mais distantes do país, possibilitando aos médicos conhecer melhor os indivíduos, suas necessidades, restrições e problemas que podem afetar sua qualidade de vida”, destacou Marisa.

Em sua experiência no HC nos últimos meses, a diretora-executiva contou que a teleconsulta trouxe uma redução de 30% no número de atendimentos presenciais no hospital. “As pessoas ficaram felizes e mais à vontade por não precisarem sair de suas casas e, muitas, por não terem de viajar até São Paulo. Essa ação ainda trouxe redução de custos aos municípios, que são responsáveis pelo transportes desses pacientes até o HC.”

E o hospital, que está na atenção terciária da saúde, tem um papel importante na construção de uma rede de coordenação de inovação e plataformas de comunicação para aumentar a entrega de valor ao paciente. “No mundo todo a tecnologia tem sido utilizada para melhorar o engajamento e a experiência do paciente. A abordagem da atenção primária antes da doença e no acompanhamento dos tratamentos evita complicações e internações, que, quando acontecem, podem ser menos complexas e graves”, afirmou Paulo Chapchap, diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês, que também participou do GS 2020.

Para ele, as ações que abrangem a promoção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a manutenção da qualidade de vida devem cada vez mais ser o foco do desenvolvimento de soluções tecnológicas, que possam ser chamadas democráticas e igualitárias. “Temos de superar o desafio da incorporação de tecnologias e da fragmentação do cuidado, ter dados integralizados de saúde e a capacitar o médico para lidar com essas informações, para que possamos, de fato, ser capazes de promover o cuidado longitudinal”, destacou Chapchap, para quem é a saúde digital vai auxiliar a melhorar as desigualdades e reduzir custos no setor.

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