Mercado de telemedicina na América Latina deve dobrar até 2023

Artigo Mercado de telemedicina na América Latina deve dobrar até 2023
Data:

10/10/2020

A projeção de crescimento é de US$ 3,5 bilhões; durante o Global Summit 2020, healthtechs brasileiras apresentam dados de expansão de usuários, profissionais e consultas durante a pandemia

A América Latina é a região com mais mortes por covid-19 no mundo e o Brasil é o principal impactado – somando mais de 150 mil casos de óbito em razão da doença. Mesmo sendo um dos países com mais hospitais no continente, as instituições possuem capacidade limitada e foram sobrecarregadas durante a pandemia. A telemedicina ajudou a preencher algumas lacunas na assistência à saúde dos brasileiros e permitiu que profissionais tratassem pacientes remotamente via chat, voz ou vídeo, emitindo laudos e receitas digitais.

Antes da covid-19, a utilização da telemedicina na América Latina possuía indicies baixos em relação a continentes como a América do Norte. Os Estados Unidos, por exemplo, dominam hoje esse mercado mundialmente – com previsão de crescimento de US$ 64,1 bilhões até 2025, segundo e estudo realizado pela Global Market Insights. Especificamente no Brasil, vários fatores devem ser levados em consideração para essa baixa adoção, como a falta de marcos regulatórios e legais. No entanto, a pandemia veio e mudou esse cenário do dia para a noite, mesmo que provisoriamente.

O serviço de telemedicina foi quase regulamentado no Brasil em 2019, mas acabou sendo revogado pelo Conselho Federal de Medicina. Esse método médico acabo sendo autorizado em caráter de emergência no início da crise. Agora, a expectativa é que a regulamentação venha no pós-pandemia, mas isso ainda depende dos órgãos de classe e do Congresso Nacional.

Os impactos da covid-19 na telessaúde foi tema de painel realizado no Global Summit Telemedicine & Digital Health 2020 – maior e mais relevante encontro sobre telemedicina e saúde digital da América Latina, promovido pela Associação Paulista de Medicina, em parceria com o Transamerica Expo Center. O encontro, mediado por Fernando Cembranelli, CEO do Health Innova Hub, contou com a participação de Daniel Ferreira, diretor do Centro Clínico Digital do Hospital da Luz (Portugal), Fábio Tiepolo, CEO da Docway, Guilherme Wiegert, CEO da Conexa Saúde, e Ricardo Moraes, CEO da Memed. As empresas revelaram dados de crescimento durante a pandemia.

A Conexa Saúde cresceu seu número de usuários mais de quinhentas vezes no período de 9 meses. Em 2020, foram realizadas mais de 1 milhão de consultas através da plataforma. “Os números mostram que a telemedicina é possível no país e traduzem o seu valor para a sociedade”, defendeu o CEO da empresa com mais de 4,5 milhões de vidas ativas. Durante a apresentação, Wiegert mostrou que a previsão para o mercado de telemedicina na América Latina é de US$ 1,6 bilhões em 2018 para 3,5 bilhões em 2023. 

Segundo o executivo, mesmo antes da pandemia, a telemedicina já se mostrava uma alterativa viável. Estudo realizado pela empresa em 2018 mostrou números interessantes desse impacto. Em um case de teleatendimento de pronto-atendimento online realizado pela Conexa Saúde na Cigna, os usuários que realizaram atendimento remoto demonstraram um custo médico total 17% menor e redução de 36% no uso do departamento de emergência em comparação a pacientes de atendimento não virtual.

Em 2020, a Docway também ultrapassou a marca 1 milhão de atendimentos realizados através da telessaúde. Outro número que cresceu dentro da empresa foi o de médicos credenciados. Hoje, a plataforma conta com 4,6 mil especialistas disponíveis para o atendimento à distância. O aumento pela aderência de médicos a esse modelo é resultado da crescente confiança no método. Segundo pesquisa realizada nesse ano pela Associação Paulista de Medicina (APM), 90% dos entrevistados acreditam que as tecnologias digitais podem ajudar a melhorar a saúde da população.

“Durante a pandemia, mais de 4 bilhões de pessoas ficaram dentro de suas casas. Médicos tiveram declínio de receita e, contaminados pela covid-19, permaneceram em casa. Com a telessaúde, esses profissionais conseguiram contribuir em seu papel mesmo estando à distância”, comentou Tiepolo durante o painel.

As healthtechs foram essenciais para o desenvolvimento digital no setor nesse período de pandemia. Através de parcerias com hospitais e planos de saúde, elas ajudaram a garantir que a assistência médica chegasse aos brasileiros em um momento de crise. Muitas instituições de saúde não estavam preparadas para a implementação expressiva da telessaúde em suas instalações e muitas empresas de tecnologia já estavam prontas para esse momento.

“Enquanto hospitais estavam sem perguntando ‘por onde eu começo?’, nós já estávamos capacitados. Nesse período, o nosso desafio não foi a adesão dessas tecnologias, mas a expansão da infraestrutura e do número de médicos para atender a demanda”, comentou o CEO da Docway.

Um exemplo de telessaúde em Portugal

Assim como outros lugares do mundo, Portugal também tem uma longa história com a telessaúde. Estima-se que o país utiliza essa tecnologia há mais de 20 anos. No começo, o método ajudou na resolução de problemas logísticos e se iniciou com mais força na área da radiologia. Mesmo sendo aplicada há mais de duas décadas, ainda assim, algumas instituições não estavam preparadas para o uso da telemedicina em suas instalações. Mas, esse não é o caso do Hospital da Luz.

Localizada em Lisboa, desde 2016 a instituição conta com um Centro Clínico Digital, dirigido por Daniel Ferreira, que realiza consultas remotas via vídeo. Quando a pandemia acometeu a sociedade, o Hospital da Luz, assim como algumas healthtechs, também já estava preparado para a utilização da telemedicina em larga escala. O desafio não foi a implantação da tecnologia, mas os preparativos para atender a demanda de pacientes online.

Durante o Global Summit 2020, Ferreira explicou que o Centro Clínico Digital passou por expansões ao longo da pandemia. Além da vasta ampliação de um corpo clínico preparado para o atendimento através desse método médico, o centro de telessaúde do hospital aumentou o número de especialidades atendidas e hoje oferece assistência para países de quatro continentes do mundo. “A nossa grande vantagem é que tudo já estava montado, apenas tivemos que treinar mais profissionais”, disse.

Muito além da teleconsulta

A telessaúde mostrou que possui muitas armas para enfrentar a pandemia e aumentar o balanço geográfico da assistência à saúde em diversas regiões, ajudando a democratizar o atendimento médico para a sociedade. Através dela, é possível prestar serviços além da consulta, como diagnóstico, monitoramento e educação para a prevenção de doenças.

Durante a crise, a tecnologia se mostrou uma forte aliada para a saúde. Um exemplo foi a expansão da receita médica digital no Brasil. A Memed, ferramenta que permite a realização de prescrições online no país, aumentou expressivamente o volume das suas emissões. Em 2019, a empresa emitia 2,5 milhões de prescrições ao ano e hoje são mais de 1,5 milhão por dia.

E não foi só em volume de prescrição que a empresa expandiu. Ricardo Moraes, CEO da Memed, revelou que, nesse ano, houve crescimento exponencial no credenciamento de médicos e aumento de 765% no número de interações na plataforma. Até agosto de 2020, R$ 2 bilhão foram prescritos em medicamentos através da ferramenta.

“A receita digital já era uma realidade em outros países. Na Dinamarca, por exemplo, ela existe desde os anos 90. Nos EUA, ela foi legalizada em 2007 em todos os estados. Desde nossa fundação, em 2012, o tempo passava e ela não se tornava uma realidade no Brasil. Mas, a pandemia e o isolamento social nos forçaram a buscar alternativas e a Memed foi uma delas”, comentou Moraes.

O CEO contou que, até março desse ano, nenhuma farmácia aceitava as receitas digitais, mas que a aderência dessas prescrições foi um resultado da própria demanda da sociedade. Segundo ele, em apenas quatro meses, foram cadastradas mais de 30 mil farmácias na plataforma. “Foi uma verdadeira ação de guerra! Demorou tanto para a saúde digital chegar, que quando ela chegou, a gente quis trabalhar”.

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