fbpx

Médica e diretora de Relações Institucionais da UHG Brasil

Artigo Médica e diretora de Relações Institucionais da UHG Brasil
Data:

19/03/2019

Telemedicina é um termo genérico que engloba diversos tipos de atendimento em saúde onde a troca de informações ocorre por meio eletrônico. Pode ser visual – como nas videoconferências médicas e teleconsultas, ou mesmo uma troca de imagens, como nos casos do telediagnóstico. Inclui ainda muitas atividades no campo da educação e do treinamento. Como o mundo digital cresce a uma velocidade cada vez maior, num compasso de inovação e transformação por vezes surpreendente, não deveria soar estranho quando vemos que a própria medicina neste contexto está mudando, trazendo novidades, desafios e oportunidades, podendo alcançar patamares nunca imaginados. Em muitos artigos e debates mais recentes, o termo telemedicina tem sido trocado por saúde digital, dando a dimensão de seu ambiente e potencial futuro.

Andando lado a lado com esta realidade, a presença do paciente como “consumidor de saúde” é notadamente mais intensa em todos os níveis da atenção. É o que chamam de consumerismo, onde o empoderamento do usuário, que acontece em todos os tipos de consumo e não é diferente na saúde. O “doutor Google” que o diga! A tecnologia, de uso cada vez mais fácil e acessível, foi propulsora dessa nova dinâmica. Sem fazer qualquer juízo de valor neste momento, é importante reconhecer essa realidade, assimilar seus conceitos, seus desafios e oportunidades, e antes de mais nada, refletir sobre seus efeitos.

A recente Lei Geral de Proteção de Dados nos dá uma noção da abrangência desse enorme desafio. Ela nos instiga a pensar, ao mesmo tempo, de forma crítica e criativa sobre como equilibrar segurança, qualidade e privacidade no contexto da saúde. Por sinal, o setor chegou bem mais tarde que outros a este debate e precisa acelerar seu passo para acompanhar as discussões da nova Lei e garantir segurança e adequação à sua implementação num terreno tão vasto quanto complexo, como é o da saúde.

A função precípua de todos os sistemas de saúde é a de melhorar a saúde das pessoas, proporcionando uma boa experiência aos usuários (pacientes e prestadores de serviço) a um custo acessível, como reza a quádrupla meta do Institute for Healthcare Improvement dos Estados Unidos (no inglês quadruple aim, – http://www.ihi.org/). Na telemedicina, nada muda em relação a isso, mas como a dinâmica é diferente daquela que nós médicos fomos treinados e acostumados, é crítico discutir e estabelecer os novos condicionantes que vão garantir aos pacientes e prestadores de serviço a qualidade que se deseja alcançar.

Itens como segurança de informação, privacidade, infraestrutura de TI há muito tem papel relevante nos atendimentos médicos, independentemente da complexidade. Ou alguém imagina que um simples consultório pode funcionar sem tecnologia hoje em dia?? Mas diante da realidade da telemedicina, essas atividades ganham relevância e criticidade. Para garantir a qualidade técnica, itens como a qualidade da conexão, resolução do monitor ou câmara, podem ser imprescindíveis para um desfecho adequado.

Do ponto de vista da qualidade clínica, diversos temas se abrem, mas, como mencionei, não devem existir diferenças nos objetivos nos dois mundos – analógico e digital – e, mais ainda, eles deverão conviver ao longo do tempo. Apenas os condicionantes podem variar. Em alguns casos, a qualidade pode aumentar no mundo digital, como por exemplo nos casos dos prontuários eletrônicos, na troca de informações entre profissionais e serviços e na capacidade de armazenamento de informações. Em outros a adequação e a capacidade de adaptação precisam ser cuidadosamente analisadas como, dentro do contexto da teleconsulta, a relação médico-paciente. A essência dessa relação é um condicionante importante para a qualidade final do atendimento e sua relevância não é menor no atendimento digital. Como garantir um ambiente propício e acolhedor nos atendimentos de teleconsulta?

De volta à quádrupla meta, itens que como a conveniência, a cordialidade/empatia e a personalização precisam ser considerados para um bom resultado seja atingido na percepção do usuário – seja ele o paciente ou o prestador do serviço. No quesito personalização, destacaria a preferência digital. Pessoas e gerações diferentes têm diferentes percepções sobre a qualidade do cuidado. Recente pesquisa da consultoria Accenture sobre o comportamento do consumidor em saúde nos Estados Unidos revela que 32% da geração Z (nascida depois de 1996) e 12% dos Millenials (nascidos entre 1981 e 1996) estão “insatisfeitos” ou “muito insatisfeitos” com a efetividade do atendimento tradicional comparados com apenas 4% dos baby boomers (nascidos entre 1946 e 1964). Há de haver espaço nos sistemas e mercados para que as pessoas possam escolher, na medida do possível, o que for mais conveniente às suas necessidades e preferências.

Por fim, já há algum tempo o dilema da saúde digital está presente na maioria dos países, em sistemas públicos e privados. No Brasil, o CFM deu um passo necessário para abrir esta discussão com a divulgação da Resolução 2227/2018. A regulamentação, quando aplicada de forma equilibrada tende a fomentar o mercado de forma segura, garantindo qualidade para pacientes e profissionais. Muito há que se debater para que ela seja nossa melhor versão. Digo “nossa” porque penso que a função do regulador é melhor exercida quando tem a participação da sociedade. Longe de encerrar o assunto, estamos ampliando esta relevante discussão. Cada um de nós, profissionais de saúde, com sua experiência pessoal e institucional, pode contribuir para que juntos possamos atingir nossa maior missão: ajudar as pessoas a viver de forma mais saudável.

Newsletter

Inscreva-se e acompanhe as novidades sobre o Global Summit Telemedicine & Digital Health 2020.