Global Summit discute os caminhos essenciais a percorrer para a saúde digital

Artigo Global Summit discute os caminhos essenciais a percorrer para a saúde digital
Data:

31/08/2021

Debate ocorreu no evento digital Medical Conecta e abordou certificação profissional, humanização do cuidado, evolução da saúde e impacto social da telemedicina

O Global Summit Telemedicine & Digital Health – maior e mais relevante encontro sobre telemedicina e saúde digital da América Latina – reuniu especialistas do ecossistema da saúde para debater os caminhos essenciais a percorrer no universo da saúde digital em um painel no Medical Conecta, no último dia 11 de agosto. O evento on-line, realizado pela Medical Fair Brasil (MFB), congregou o setor médico-hospitalar em uma plataforma digital para discutir o cenário da saúde junto a quem faz a diferença no segmento, visando ao desenvolvimento e fortalecimento do setor.

A telemedicina foi autorizada no Brasil pela lei nº 13.989, de abril de 2020, do Ministério da Saúde, e ganhou destaque com o isolamento social imposto pela pandemia de Covid-19. Porém, o uso de tecnologias pelos profissionais de saúde levanta a necessidade de qualificação e capacitação para que o atendimento remoto seja adequado e atenda seu objetivo.  

“Telemedicina é um método de cuidado, não uma ferramenta, e a base de tudo é a formação, educação e a capacitação. É a partir disso que nós podemos ter um caminho para a certificação profissional. Instituições que produzem cursos de aperfeiçoamento e extensão podem trazer esse componente para o médico, já que a telessaúde e a telemedicina, como todo método, precisam ser aprendidas. Acredito que este seja o caminho recomendável para se fazer uma prática de atendimento remoto com segurança, ética e qualidade”, afirmou o médico neurologista Jefferson Gomes Fernandes, presidente do Conselho Científico do Global Summit – evento promovido pela Associação Paulista de Medicina, em parceria com o Transamerica Expo Center, que terá sua 3ª edição realizada de 9 a 12 de novembro próximo, em formato digital.  

Fernandes destacou que a telemedicina pode permitir o estabelecimento de uma relação médico-paciente, desde que seja feita de forma responsável, considerando como, quando, em que circunstâncias e com quem ela é utilizada. Também disse que é preciso conhecer seus benefícios, mas, também, suas limitações.

“Mais uma razão para uma capacitação, que pode envolver vários aspectos, como a gestão da teleconsulta, ferramentas tecnológicas e sistemas de informação, como plataformas de telemedicina, prontuário eletrônico, pois hoje muitos médicos usam softwares de comunicação com os seus pacientes, como o WhatsApp. Mas esta não é a opção mais adequada para uma teleconsulta, pois temos as questões de segurança, de registro das informações. O mais adequado é ter uma plataforma que utilize sistemas criptografados e outros métodos para aumentar a privacidade dos dados”, alertou o médico.

A apresentação do profissional, a ambiência, a forma de se vestir, habilidades de comunicação, a interação com o paciente por meio de uma tela olho no olho são questões que envolvem conhecimento e treinamento, os quais são importantes para garantir a qualidade do atendimento a distância.

Fernandes também ressaltou ser fundamental o cuidado para um atendimento humanizado, com respeito, acolhimento, empatia, escuta e atenção.

“É importante o toque, mesmo que não físico, mas o da interação”, destacou o presidente do Conselho Científico do Global Summit, lembrando que o papel da anamnese para o diagnóstico inicial do problema de saúde do paciente é maior do que o exame físico. Há estudos que relatam uma contribuição de 76% pela história e 11% pelo exame físico. 

“Por isso, a importância do uso de uma plataforma adequada para a teleconsulta, que é uma boa oportunidade para a coleta efetiva da história clínica do paciente, compensando, em certa medida, as limitações para o exame físico, além da possibilidade de conhecer o ambiente familiar do paciente”, explicou Fernandes.

Ele salientou que ao escolher uma plataforma de telemedicina, é necessário estar atento à segurança e privacidade, como cumprir o que estabelece a Lei Geral de Proteção de Dados; guarda segura das informações; autenticação da identidade do médico e do paciente; certificação digital; consentimento informado (e registrado) do paciente; e prescrição eletrônica.

Informou ainda que o prontuário do paciente sempre será a forma mais correta de anotação de dados clínicos, que devem ser armazenados, de preferência, eletronicamente e certificado.

“O dever de proteção aos dados pessoais é do médico, das equipes assistenciais envolvidas no atendimento e do software/empresas contratadas. Uma política de gestão de riscos, com a conscientização interna e treinamento das equipes, ajuda a evitar o risco de incidentes de segurança”, recomendou Fernandes, destacando também a importância de o médico estar informado sobre a legislação e regulamentação da telemedicina e sobre o Código de Ética Médica.

Antonio Carlos Endrigo, diretor de Tecnologia da Informação da APM e presidente da Comissão Organizadora do Global Summit, reiterou a relevância da qualificação e capacitação dos médicos para a prática da telemedicina.

“Esse novo método de atendimento teve um grande incremento no último ano devido à pandemia do novo coronavírus. Com uma população de mais de 300 mil médicos e poucas faculdades de medicina oferecendo essa abordagem em seus currículos, é necessário que esses profissionais tenham uma capacitação adequada para essa prática”, pontuou.

Humanização do atendimento

A telemedicina pode aumentar e fortalecer o relacionamento de confiança entre os profissionais de saúde, pacientes e seus familiares. Telemedicina e telessaúde são métodos inovadores com olhar integral à saúde dos pacientes, otimizando o tempo e facilitando o estabelecimento do melhor vínculo do médico com seu o paciente.

Essa é a opinião da gerente médica do Grupo Fleury, Daniela Bahia, que em sua palestra no evento explicou que a telemedicina possibilita a eficiência do cuidado e intensifica a humanidade na assistência médica.

“A experiência do paciente ganhou relevância nos últimos 10 anos e com o recurso tecnológico na palma da mão, a expressão de cuidado pode ser conseguida por meio da interação do médico com o paciente, por meio de ferramentas tecnológicas e da capacitação desses profissionais, para o exercício da empatia, da escuta ativa e atenta, a construção de uma relação para a satisfação do paciente”, explicou.

Daniela destacou que o treinamento comportamental para a prática da telemedicina e da telessaúde é fundamental para uma comunicação empática. Mas quando se olha para o bem-estar, satisfação, engajamento, seja do profissional de saúde ou do paciente, há outros mecanismos para alavancar tudo isso.

“Como práticas que promovem a resiliência (meditação e ioga), mecanismo de reconhecimento dos profissionais, para que, de fato, consiga-se estabelecer essa relação de confiança, que é a base para a relação médico-paciente, e oferecer ciclos virtuosos de experiência no cuidado, seja presencial ou por meio da telemedicina, humanizado”, observou Daniela.

Ian Bonde, fundador e CEO da Vibe Saúde – empresa líder em saúde digital B2C no Brasil – comentou que a telessaúde pode criar um impacto social, pois facilita o acesso da população à saúde de qualidade de forma conveniente e a preços mais acessíveis.

“É muito importante falarmos sobre como o atendimento remoto, feito de forma humanizada e próxima, contribui para o acesso à saúde de qualidade para todos os brasileiros”, destacou o empresário, que lembrou que o Brasil é o maior país do mundo com saúde universal; gasta 9,2% do seu PIB em saúde; é o sétimo maior sistema de saúde do mundo; e o quarto em números de profissionais de saúde. Mas, por outro lado, não investe bem e isso resulta em 89% da população classificando como ruim o Sistema Único de Saúde (SUS) e 43% não confiar na qualidade dos médicos.

“Acredito que a saúde digital tem um papel importantíssimo para a base da pirâmide de 160 milhões de brasileiros, que não possuem plano de saúde privado e dependem do SUS. População essa que gasta cerca de 6,5% da renda disponível com saúde, em sua maioria medicamentos. E com a penetração de 84% de smartphones no país, a saúde digital é fundamental para dar essa capilaridade de acesso à saúde”, salientou Bonde.

A telemedicina, na visão do CEO, pode suprir a carência e a grande diferença de acesso à saúde dos brasileiros.

“A saúde digital pode dar capilaridade a toda geografia do Brasil, reduzir a espera para o atendimento, gerenciar a demanda excessiva, dar acesso a especialistas e reduzir custos para uma consulta de qualidade”, reforçou Bonde.

Ele ressaltou que a prática do atendimento a distância tem o foco na saúde primária, com importância do médico de família e da saúde mental; visão 360º do paciente e do cuidado continuado; mais ou menos 80% de resolução dos casos nas teleconsultas; e é auxiliar aos SUS, principalmente nas questões de gestão de demanda.

“A telemedicina, a telessaúde e a saúde digital como um todo potencializam a escala de acesso à saúde para grande parte da população e possibilitam a integralidade e a continuidade do cuidado”, garantiu o CEO da Vibe Saúde, que ainda afirmou que é preciso pensar na telemedicina com uma funcionalidade, não como finalidade.

“Pensando em um modelo de impacto social quando se quer captar valor, é preciso oferecer solução a preços acessíveis e monetizar o plano de negócios, trabalhando com o conceito de ecossistema com outras soluções e jornada de saúde com o paciente no meio, gerando engajamento em saúde, pois acreditamos que todo brasileiro merece ser cuidado com amor ao longo da vida”, frisou Bonde.

Novo paradigma

Atualmente, hospitais, clínicas, laboratórios e planos de saúde se beneficiam financeiramente ao oferecer cada vez mais serviços, de forma fragmentada. Mas em 2030 este modelo deve ser substituído por um que tenha como objetivo o melhor resultado para o paciente.

Segundo Luiz Lapão, professor da Universidade Nova, de Lisboa (Portugal), as instituições de saúde seriam remuneradas de acordo com o sucesso de procedimentos atrelados à qualidade de vida do paciente e de sua família.

“Desde 2020, há um aumento de teleconsultas e uma redução de emergências. Acreditamos que os resultados a partir de agora, inclusive dos tratamentos, poderão ser mensurados através de novas tecnologias na saúde como wearables e biossensores. O fato é que o setor da saúde no mundo passará por mudanças na próxima década”, comentou Lapão.

Ele informou que a dinâmica do atendimento vem mudando com a teleconsulta e apresentou um estudo que mostra que, desde o início da pandemia de Covid-19, quase 50% dos atendimentos com especialistas vêm sendo por meio da teleconsulta; que 45% do total de teleatendimentos foi para consultas de rotina e que houve um aumento de 45% nos cuidados on-line para a saúde mental.

“A prevalência das doenças crônicas e os custos crescentes, bem como a tecnologia disponível, que facilita o monitoramento do doente, e a pandemia contribuíram para a ampliação da telemedicina e da telessaúde no mundo”, informou Lapão, que destacou que a inteligência artificial vai contribuir muito para as mudanças que estão por vir na saúde até 2030. 

“A humanização por meio do apoio da saúde digital será a base do cuidado e a inteligência artificial vem para auxiliar em três áreas fundamentais: gestão de risco, ajudar a identificar onde estão os doentes que precisam de atendimento e melhorar a experiência do paciente e do médico. A tecnologia é fundamental e a evolução dos serviços de saúde também, para que tenhamos uma ação integrada, que garanta as respostas que as populações esperam”, finalizou. 

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